Você está construindo mais do que uma comunidade
Como quem organiza encontros de founders está participando do desenvolvimento econômico da sua cidade, mesmo sem perceber
Existe um founder que eu acompanhei desde antes de ele saber exatamente o que estava construindo.
Ele apareceu num dos primeiros encontros da comunidade sem produto definido, sem time formado, com uma ideia que ainda cabia numa frase vaga. Sentou, ouviu, trocou contato com algumas pessoas. Voltou no mês seguinte. E no seguinte.
Alguns anos depois, a empresa dele empregava centenas de pessoas.
Não estou dizendo que a comunidade fez isso acontecer. Estou dizendo que ela foi parte do ambiente que tornou isso possível. Um ambiente onde ele encontrou as pessoas certas no momento certo, onde a informação circulava antes de virar notícia, onde havia confiança suficiente para pedir ajuda sem parecer fraco.
E é exatamente aí que mora algo que raramente é dito com clareza.
Quando esse founder cresceu, a cidade cresceu com ele. Empregos, impostos, serviços ao redor, renda distribuída. E uma parte invisível disso tem o nome de uma comunidade de startups que se reunia toda semana sem que ninguém chamasse aquilo de política econômica.
Nos últimos textos, falamos sobre o que sustenta comunidades, o que as enfraquece e quando elas param de ser úteis. Este texto fecha esse ciclo com uma pergunta diferente.
O que exatamente você está construindo quando constrói uma comunidade de startups?
A resposta é maior do que parece.
Se você chegou até aqui pela primeira vez, O Elo é uma newsletter sobre o funcionamento real de ecossistemas e comunidades de startups no Brasil. Não como eles parecem por fora, mas como operam por dentro.
1. O que uma startup faz por uma cidade
Para entender o papel de comunidades, é preciso entender primeiro o que startups fazem pelos territórios onde crescem.
E a resposta vai muito além do que costuma aparecer nas manchetes sobre unicórnios e rodadas de investimento.
O ecossistema de startups de São Paulo tem hoje valor estimado em US$ 51 bilhões, mais que o dobro da média global de US$ 20 bilhões. São 16 unicórnios ativos, US$ 15 bilhões captados em venture capital entre 2020 e 2024, e o menor tempo médio para exit entre os principais ecossistemas da América Latina. Em 2024, foram registrados mais de 309.000 novos negócios apenas no estado.
Esses números são impressionantes. Mas o que eles representam na prática, no nível da cidade e das pessoas que nela vivem, raramente é descrito com precisão.
Startups geram empregos de forma diferente da indústria tradicional.
Uma fábrica leva anos para contratar milhares de pessoas. Uma startup de tecnologia pode fazer isso em meses. E os empregos que gera costumam concentrar alta qualificação e remuneração acima da média, o que tem efeitos diretos sobre o consumo local, a arrecadação de impostos e o desenvolvimento de capital humano na cidade.
Startups transformam o território físico ao redor.
Não é coincidência que bairros como Pinheiros e Vila Olímpia concentrem hoje 25% das vagas em tecnologia de São Paulo. Quando um hub de inovação se instala numa região, escritórios surgem ao redor. Restaurantes mudam o cardápio. O perfil dos moradores se altera. A valorização imobiliária acontece. Uma startup não existe apenas dentro do seu escritório. Ela muda o ambiente onde está inserida.
Startups distribuem renda de formas que empresas tradicionais raramente fazem.
Equity, stock options, participação nos resultados. Quando uma startup cresce e tem um exit relevante, funcionários que estavam desde o começo podem se tornar investidores das próximas. Esse ciclo de distribuição de riqueza, ainda incipiente no Brasil mas já visível em casos como 99 e Nubank, tem consequências econômicas de longo prazo que vão muito além do evento de liquidez em si.
Em cidades menores, o impacto é ainda mais concentrado.
Uma startup que emprega cinquenta pessoas numa cidade de cem mil habitantes tem um peso completamente diferente de uma que emprega o mesmo número em São Paulo. Pode se tornar um dos maiores empregadores locais, um dos maiores pagadores de impostos, uma referência que atrai outros talentos e outras empresas para aquele território.
Não à toa, países europeus disputam ativamente startups com incentivos fiscais e programas de atração. Não por altruísmo. Porque entenderam que uma startup que escolhe se instalar numa cidade está escolhendo também transformá-la.
O que isso tem a ver com o encontro de founders que você organiza toda semana?
Tudo.
2. A infraestrutura que ninguém vê
Startups não nascem no vácuo.
Elas nascem em ambientes. E ambientes são construídos por pessoas, ao longo do tempo, através de decisões que raramente aparecem em relatórios de impacto.
Existe uma pergunta que o Startup Genome, organização que mapeia ecossistemas de startups em todo o mundo, usa para medir a maturidade de um ecossistema: com que facilidade um founder consegue encontrar o que precisa, as pessoas certas, o conhecimento certo, o capital certo, no momento certo?
Essa facilidade não é natural. É construída.
E grande parte dela é construída por comunidades.
Comunidades reduzem o custo de encontrar cofundadores.
A maioria das sociedades que deram origem a startups relevantes no Brasil começou numa conversa informal. Um evento, um café, um encontro onde duas pessoas perceberam que podiam construir algo juntas. Sem o ambiente que viabilizou essa conversa, a empresa não teria começado. Ou teria começado mais tarde, com menos energia, com a pessoa errada.
Comunidades criam o ambiente onde informação circula antes de virar notícia.
Quem está dentro de uma comunidade ativa sabe de oportunidades antes delas serem públicas. Sabe de programas de aceleração antes das inscrições abrirem. Sabe quais investidores estão ativos, quais parceiros fazem sentido, quais armadilhas evitar. Essa circulação de informação tem valor econômico real, mesmo que ninguém contabilize.
Comunidades constroem a confiança que viabiliza negócios.
Transações econômicas dependem de confiança. E confiança se constrói em encontros repetidos ao longo do tempo, exatamente o que comunidades com ritmo e presença real oferecem. Um investidor que conhece um founder há dois anos através de uma comunidade vai tratar aquela conversa de forma completamente diferente de um cold email.
Comunidades de startups são a infraestrutura humana do desenvolvimento econômico local. Invisível nos mapas, decisiva nos resultados.
Nenhum desses mecanismos aparece nos dados do Startup Genome. Nenhum deles é contabilizado nos relatórios de impacto que prefeituras e governos estaduais usam para medir o ecossistema de startups da cidade.
Mas todos eles determinam, de forma concreta e acumulada, quantas startups vão nascer, quantas vão sobreviver e quantas vão crescer o suficiente para transformar a cidade ao redor.
3. O momento em que isso se torna visível
Há um momento específico na trajetória de quem lidera uma comunidade de startups em que algo muda na forma de entender o próprio trabalho.
Não é quando o evento tem o maior público. Não é quando a imprensa cobre. Não é quando um parceiro importante resolve apoiar.
É quando você começa a ver os primeiros founders que acompanhou desde o começo atingindo marcos que, lá atrás, pareciam distantes demais para ser levados a sério.
A venda de uma empresa. Centenas de funcionários. Reconhecimento nacional. Uma rodada que aparece no noticiário econômico. Um produto que milhões de pessoas usam sem saber que o founder estava, alguns anos antes, numa mesa de um encontro da sua comunidade tentando descobrir para onde ir.
Esse momento tem um efeito estranho. Ele não gera apenas orgulho. Gera uma revisão retroativa de tudo que aconteceu antes.
Você começa a rever as conexões que facilitou. As conversas que aconteceram no espaço que você criou. Os voluntários que cresceram dentro da comunidade e foram trabalhar nessa empresa em crescimento. Os outros founders que cruzaram o caminho desse fundador dentro do ecossistema que você ajudou a construir.
E percebe que o papel que a comunidade teve não era visível no momento em que acontecia.
Era visível apenas no acúmulo.
Isso é diferente de dizer que a comunidade foi responsável pelo sucesso daquele founder. Ninguém é responsável pelo sucesso de outra pessoa. Founders constroem suas próprias empresas, com seus próprios times, suas próprias decisões e seu próprio esforço.
Mas ambientes importam. E comunidades constroem ambientes.
A diferença entre um founder que tem acesso ao ecossistema certo no momento certo e um que está sozinho tentando descobrir tudo por conta própria é concreta e mensurável — mesmo que raramente seja medida.
E você ajudou a criar esse acesso.
Não apenas para um founder. Para todos que passaram pela sua comunidade ao longo do tempo. E cada um desses founders, à medida que cresce, transforma um pouco mais a cidade onde está.
Isso é desenvolvimento econômico local. Feito de baixo para cima, sem decreto, sem edital, sem verba pública.
Feito por pessoas que se reuniam toda semana porque acreditavam que valia a pena.
4. Por que isso raramente é reconhecido — e o custo disso
Existe uma razão pela qual comunidades de startups raramente se enxergam como agentes de desenvolvimento econômico.
Ninguém as ensinou a pensar assim.
O vocabulário disponível para descrever o que fazem é o vocabulário do networking, do apoio ao empreendedorismo, da comunidade de propósito. São descrições verdadeiras. Mas incompletas.
E essa incompletude tem consequências práticas que custam caro.
Comunidades que não entendem o papel que ocupam pedem menos do que poderiam.
Uma comunidade que se enxerga como “um grupo de pessoas apaixonadas por startups” vai pedir um patrocínio de R$ 500 para cobrir o coffee break do próximo evento. Uma comunidade que entende que está construindo infraestrutura de desenvolvimento econômico local vai ter uma conversa completamente diferente com a mesma prefeitura, com o mesmo banco, com a mesma corporação.
Não porque esteja exagerando o próprio valor. Porque está descrevendo com precisão o que de fato faz.
Voluntários que não entendem o impacto do que fazem esgotam mais rápido.
Nos textos anteriores desta série, exploramos o que sustenta voluntários ao longo do tempo. Um dos elementos centrais era a linha de visão entre o que o voluntário faz e o impacto que isso gera.
Quando essa linha de visão inclui a dimensão econômica, quando o voluntário entende que o encontro que organizou toda semana durante dois anos foi parte do ambiente que permitiu que uma startup crescesse e empregasse cinquenta pessoas na cidade, o significado do que faz muda de tamanho.
Não é mais organizar um happy hour. É construir parte da infraestrutura econômica da cidade.
Ecossistemas que não reconhecem o papel de comunidades os subfinanciam sistematicamente.
Programas públicos de fomento ao empreendedorismo investem em aceleradoras, em hubs de inovação, em eventos de grande porte. Raramente investem em comunidades com presença recorrente e missão clara.
Não porque as comunidades sejam menos importantes. Porque nunca aprenderam a articular seu valor na linguagem que esses programas reconhecem.
Essa mudança começa quando quem está dentro das comunidades passa a se enxergar de forma diferente. Não como organizadores de eventos. Como construtores de infraestrutura.
5. O que muda quando você entende o papel que ocupa
Reconhecer que uma comunidade de startups faz parte do desenvolvimento econômico local não é um exercício de autoestima coletiva.
É uma mudança de posicionamento com consequências práticas.
E essas consequências aparecem em pelo menos três dimensões.
A primeira é a conversa com quem pode apoiar.
Comunidades que se enxergam como grupos de entusiastas pedem favores. Comunidades que entendem que estão construindo infraestrutura econômica fazem propostas.
A diferença não está no tom. Está na substância.
Quando você consegue descrever com precisão quantos founders passaram pela sua comunidade nos últimos três anos, quantos deles estão com empresas ativas, quantos empregos essas empresas geraram e qual o impacto estimado disso no ecossistema local, a conversa com uma prefeitura, um banco de desenvolvimento ou uma corporação muda completamente.
Não porque você esteja exagerando. Porque está falando a língua que esses interlocutores reconhecem.
A segunda é a conversa interna com voluntários.
Nos textos anteriores desta série, exploramos o que sustenta voluntários ao longo do tempo. Linha de visão entre o que fazem e o impacto que geram foi um dos elementos centrais.
Quando essa linha de visão inclui a dimensão econômica, o significado do trabalho voluntário muda de tamanho.
Não é mais organizar um encontro semanal. É construir parte do ambiente que determina quantas startups vão nascer e crescer na cidade. É participar de algo cujas consequências vão aparecer anos depois, na forma de empregos, impostos e transformação local.
Esse entendimento não resolve todos os problemas de retenção de voluntários. Mas muda profundamente a conversa sobre por que vale a pena continuar.
A terceira é a conversa com o poder público.
Municípios que entendem o valor econômico de ecossistemas de startups maduros criam condições para que esse valor continue sendo gerado. Espaços cedidos, desburocratização, programas de conexão entre startups e demandas locais.
Mas essa conversa raramente acontece porque comunidades raramente a iniciam. E raramente a iniciam porque não se enxergam como interlocutoras legítimas nesse território.
Quando isso muda, o ecossistema inteiro se beneficia. Não apenas a comunidade que fez a mudança.
6. Fechamento
Você não precisa esperar uma startup virar unicórnio para entender que faz parte de algo maior.
O founder que encontrou o cofundador certo no seu evento. A conexão que virou investimento. O voluntário que aprendeu a liderar dentro da comunidade e levou isso para uma startup em crescimento. A conversa que aconteceu num happy hour de sexta-feira e que, meses depois, virou uma empresa que emprega pessoas reais numa cidade real.
Tudo isso tem consequências econômicas concretas para o território onde acontece.
São Paulo chegou a US$ 51 bilhões de valor de ecossistema não apenas por ter grandes empresas e investidores sofisticados. Chegou porque, ao longo de anos, pessoas construíram o ambiente humano que tornou tudo isso possível. Encontros, conexões, confiança acumulada, informação circulando antes de virar notícia.
Você está construindo mais do que uma comunidade.
Está construindo parte da infraestrutura que determina o futuro econômico da sua cidade.
E isso vale para qualquer cidade do Brasil. Não apenas para São Paulo. Para Florianópolis, que cresceu 57% no último ranking do StartupBlink. Para Joinville, que entendeu que seu papel era maior do que organizar um evento por ano. Para São Mateus, para Boa Vista, para Currais Novos, para qualquer cidade onde alguém decidiu reunir e suportar founders regularmente porque acreditava que valia a pena.
O que você faz tem nome. Tem impacto. E tem consequências que vão muito além do que qualquer relatório consegue medir.
Na quinta-feira, O Elo publica o último texto desta série — e o mais denso. Vamos explorar como comunidades que entendem esse papel começam a agir de forma estratégica dentro do ecossistema, e o que as separa de comunidades que apenas existem. É conteúdo exclusivo para assinantes.
Se você acompanhou esta série e quer ir até o final, este é o momento.
Obrigado por ler O Elo!





